segunda-feira, 26 de maio de 2008

Texto da Aula de Hoje - Carta

Mariana,

Hoje, li um texto que me deixou bastante pensativa. Ele me fez pensar na sujeita que muitas vezes fazemos quando nos reunimos para tomar o nosso lanche. Realmente, quando estamos lanchando e cai algum papel de bala, chocolate ou doce no chão, não pegamos porque pensamos que foi apenas um. Só que nós somos cinco e, é muito papel no chão. Sem contar o refrigerante que cai também.
Amanhã, vamos tentar mudar o nosso jeito de tomar lanche para não emporcalhar a nossa escola, certo.
Até amanhã.

Márcia

quarta-feira, 21 de maio de 2008

COMUNICAR-SE PARA CONHECER



José Manuel Moran

Diretor Acadêmico da Faculdade Sumaré-SP e
ex-professor da ECA-USP

Capítulo 9 do meu livro "Mudanças na comunicação pessoal", 2ª ed, Paulinas, 2000, p.137-154.


O conhecimento se dá fundamentalmente no processo de interação, de comunicação. A informação é o primeiro passo para conhecer. Conhecer é relacionar, integrar, contextualizar, fazer nosso o que vem de fora. Conhecer é saber, é desvendar, é ir além da superfície, do previsível, da exterioridade. Conhecer é aprofundar os níveis de descoberta, é penetrar mais fundo nas coisas, na realidade, no nosso interior. Conhecer é conseguir chegar ao nível da sabedoria, da integração total, da percepção da grande síntese, que se consegue ao comunicar-se com uma nova visão do mundo, das pessoas e com o mergulho profundo no nosso eu. O conhecimento se dá no processo rico de interação externo e interno. Pela comunicação aberta e confiante desenvolvemos contínuos e inesgotáveis processos de aprofundamento dos níveis de conhecimento pessoal, comunitário e social.

Na descoberta dos caminhos para viver passamos por etapas de deslumbramento, de desânimo, de escuridão, de realização, de paz, de inquietação. Em cada etapa o horizonte se modifica: ora vemos o arco-íris na nossa frente ora montanhas intransponíveis.

Caminhar na vida nos ensina também a relativizar quase tudo: teorias, promessas, perspectivas, crenças. Vamos mudando; o que nos servia numa etapa não nos ajuda mais. Idéias que pareciam superadas, de repente voltam a fazer sentido. Essa é uma das grandes lições da vida: sabemos que sabemos pouco.

É mais o que se nos escapa do que conhecemos. O tempo nos ensina a humildade. No começo pensamos ter mil explicações para tudo, descobrimos as razões dos nossos pensamentos e ações. Aos poucos constatamos a complexidade de variáveis que se escondem atrás de cada pessoa, de cada interação, de cada decisão. Descobrimos que há um universo invisível e atuante junto com o visível, mas até onde se estende o invisível é um mistério. Quem sabe explicar o universo? Quem sabe dar conta da complexa interação de energias que circulam dentro e em torno de nós? Quem tem certeza das explicações fundamentais para a nossa vida?. O essencial se nos escapa. Conhecemos muito da superfície das coisas e pouco da profundidade, do que realmente fundamenta tudo.

O contato com pessoas tão diferentes com as quais interagimos, nos vai mostrando mil formas de perceber, de sentir, de pensar, de agir, de interagir. Encontramos pessoas que parecem captar dimensões mais ricas da realidade, por meios diferentes dos convencionais. Deixando de lado os que trapaceiam, vemos pessoas que são sensíveis, honestas, que têm certos poderes de percepção ou de cura, fora dos padrões convencionais. Esses poderes, se de um lado lhes conferem superioridade em determinados momentos, também lhes trazem inúmeros problemas pessoais como dificuldade em gerenciamento emocional, propensão a crises emocionais. Há mais saberes que os reconhecidos, assim como há uma amálgama de explicações irreais, míticas, que dificultam a compreensão da realidade.

Estamos numa etapa de ampliação do conhecimento do universo em todas as dimensões, científica, psicológica e também no que chamamos “espiritual”. A humanidade vem tentando entender e organizar o sagrado. As religiões procuram dar visibilidade a toda uma série de buscas pessoas e coletivas da humanidade. Mas o sagrado ultrapassa essas formalizações. Há muito mais e, ao mesmo tempo, não conseguimos ainda explicitá-lo claramente.

Os vários níveis de comunicação para o conhecimento

Cada um de nós se conecta com o mundo de várias formas, integrando vários níveis de percepção, todos interligados e interdependentes, onde enfatizamos mais a ligação sensorial externa ou a reelaboração mais interna das nossas percepções, a partir dos nossos “bancos de dados”, da catalogação das informações e experiências registradas, e que servem de suporte para novas reelaborações. Chegamos finalmente à comunicação extrasensorial, ainda um campo nebuloso de pesquisa, onde pisamos com cuidado, porque é difícil aquilatar a precisão do seu alcance.

A comunicação sensorial

Captamos o mundo a partir dos sentidos externos. Aprendemos a partir da interação com o mundo através do ver, ouvir, tocar, cheirar, sentir. Todos a desenvolvemos até um determinado ponto, ao menos para sobreviver (percepção pragmática). É sempre possível aperfeiçoá-la, integrando os sentidos, reeducando o ver, o ouvir, o tocar.

O conhecimento precisa da ação coordenada de todos os sentidos -caminhos externos- combinando o tato (o toque, a comunicação corporal), o movimento (os vários ritmos), o ver (os vários olhares) e o ouvir (os vários sons). Os sentidos agem complementarmente, como superposição de significantes, combinando e reforçando significados.

Um dos estudos mais instigantes foi realizado por Howard Gardner no livro "Estruturas da Mente"[1], que, em síntese, afirma que conhecemos através de um sistema de "inteligências" ou habilidades interconectadas e, em parte, independentes, com pesos diferentes para cada indivíduo e para cada cultura.

Todos temos, segundo Gardner, a "inteligência" ou habilidade lingüística, que se manifesta em gostar de escrever, ler, ouvir e contar estórias; que facilita a compreensão através das palavras faladas ou escritas. Em muitas pessoas esta habilidade lingüística é mais espontânea, imediata, perceptível. Em outros vai se desenvolvendo aos poucos, pelo processo de aprendizagem. Também temos a "inteligência" ou habilidade lógico-matemática, que nos ajuda a estruturar, organizar, hierarquizar e sintetizar todas as coisas, a encontrar ordem no caos. Todos nós a possuímos, mas com peso diferente e dependendo da idade e do nível de amadurecimento intelectual, conseguimos desenvolvê-la mais profundamente.

Em nós também existe, em graus diferentes, a habilidade espacial: a capacidade de pensar com imagens, com fotos; de visualizar imagens claras quando se pensa sobre algum assunto, de ter memória visual e gostar de produções artísticas onde predomina a imagem.

Também possuímos a habilidade musical, que se revela na sensibilidade para sons, melodias, ambientes sonoros. As pessoas dotadas desta inteligência gostam de música, de tocar algum instrumento e valorizam estudar ou trabalhar com música. Aprendem mais facilmente através do som.

Outro caminho para o conhecimento é o cinestésico-corporal, que processa melhor a informação através do movimento e do toque; que se manifesta em não poder ficar muito tempo sentado e em aprender melhor movimentando-se, tocando ou mexendo nas coisas.

Temos e desenvolvemos também duas habilidades complementares: a intrapessoal e a interpessoal. Na intrapessoal predomina a busca individual, isolada, intuitiva do conhecimento. Na interpessoal, ao contrário, aprende-mos melhor através da interação, da cooperação com os outros.

Em síntese, todos temos os mesmos instrumentos para chegar ao conhecimento, mas não com a mesma intensidade. Aprendemos de formas diferentes. Uns têm mais facilidade de aprender através das imagens, outros através da fala, outros através da música, do movimento, do isolamento ou da cooperação. Todos os alfabetizados possuímos a habilidade lingüística, a capacidade de ouvir, ler e escrever estórias. Mas alguns, desde o começo, mostram mais facilidade em manusear as palavras; sentem prazer em ler e escrever. Outros, pelo contrário, captam melhor o que podem ver. Mesmo quando estão lendo (uma operação abstrata) acompanham o que lêem com imagens, apóiam-se no concreto da imagem, como um outro registro ou muleta para poder entender.

Os caminhos para o conhecimento são múltiplos, mas seguem uma trilha básica semelhante: partem do concreto, do sensível, do analógico na direção do conceptual, do abstrato. Quanto mais se superpõem os caminhos para o conhecimento mais facilmente se consegue atingir a todas as pessoas e relacionar melhor todas as possibilidades de compreensão.

Conhecimento pela comunicação interior

Possuímos como um banco organizado de dados, de informações e experiências, que atualizamos diante de algo novo. Reelaboramos as percepções exteriores, utilizando a intuição, a memória, a imaginação. Visualizamos novas realidades, elaboramos novas conexões mentais, imaginativas. Acontece quando imaginamos, sonhamos, pensamos “com os olhos abertos”, quando meditamos, quando simulamos situações na nossa mente.

A percepção interior depende da evolução pessoal. Há visualizações mais simples, mais lineares e outras mais complexas, mais ricas. Há uma visualização mais ligada à percepção espacial, outra mais ao sensorial (tocar, sentir), outra mais ao ouvir. Um cego desenvolve formas novas de ver, um ver interior poderoso. Um cientista vê processos, fórmulas, experiências, enquanto está fazendo outras coisas, até dormindo. Uma pessoa religiosa vê imagens sagradas, cenas bíblicas que o ajudam a meditar. Outros, sentem mais, tocam as coisas interiormente, recordam as pessoas queridas em momentos de aproximação, de toque, de movimento. Percebem melhor pelo toque interior, pelas sensações interiores. Para muitos outros é mais fácil perceber a partir de sons interiores, de vozes que nos falam, que associamos a cenas, situações.

Normalmente percebemos de forma integrada, com todos os sentidos. Mas em cada um de nós predomina uma forma de percepção, que nos é mais fácil, mais imediata, e a primeira que utilizamos quando entramos em contato com a realidade. Se temos facilidade de perceber visualmente (através da relação direta) a realidade, também temos facilidade de perceber interiormente de forma visual, lembrando cenas arquivadas na nossa memória ou re-elaborando novas cenas no nosso imaginário.

O conhecimento intuitivo

Os caminhos para o conhecimento através do sensorial se cruzam com os da intuição. O caminho intuitivo é o da descoberta, das conexões inesperadas, das junções, das superposições, da navegação não linear, da capacidade de maravilhar-se, do aprofundamento do conhecimento psíquico, de formas de comunicação menos conscientes.

A intuição é o resultado de uma síntese de todos os processos inclusive os racionais, que consegue ultrapassar os limites do previsível, do já aceito de antemão e captar novas dimensões, muitas vezes, só semi-percebidas, que podem re-orientar a nossa vida, começar um novo caminho de pesquisa teórica ou de mudanças imprevistas. A intuição é um caminho fundamental para o conhecimento integrado, um conhecimento por conexões rápidas, por processos de generalização a partir de poucas situações prévias.

A intuição não é cega nem irracional. Consegue-se com a abertura do nosso ser, da nossa mente para perceber, sentir, ver de uma forma mais aberta, mais livre, menos preconceituosa. A intuição é um processo de conhecimento que, assim como o racional, aperfeiçoa-se com a prática, com o apoio às condições positivas de abertura prestando atenção a todos os sentidos exteriores e interiores do indivíduo.

A intuição não se opõe à razão, mas não segue exatamente os mesmos caminhos. A intuição está ligada à capacidade de relacionar mais livremente os dados, de associar temas de forma inesperada, de aprender pela descoberta. Para o conhecimento racional precisamos concentrar-nos no tema que estamos estudando. Para o desenvolvimento do conhecimento intuitivo precisamos relaxar internamente, dialogar conosco, decodificar a linguagem do silêncio, entrar em ambientes tranqüilos, sem depender continuamente de ambientes sonoros externos acelerados, como os do rádio, da televisão (usados muitas vezes como pseudo-companhia, como fuga de si mesmo). O relaxamento é uma das condições do conhecimento em profundidade. Relaxar não é só uma atitude física corporal, mas uma atitude permanente, profunda de encarar a vida com tranqüilidade, com paz. O relaxamento facilita a aprendizagem, desenvolve a intuição, a capacidade de relacionar, de ter novos insights.

A comunicação extrasensorial

Algumas pessoas percebem realidades exterior e interiormente que não são acessíveis a outras. São pessoas que captam pensamentos de outros, que percebem a qualidade da energia de outras pessoas (ou aura) e tem pré-monições (antecipam os pensamentos de alguém ou prevêem situações ainda não acontecidas).

Todos sabemos que é muito difícil avaliar essas formas de conhecimento, justamente porque a grande maioria das pessoas não os sentem. Mas não há dúvida de que pessoas confiáveis, e que não querem explorar econômica ou de qualquer outra formas essas manifestações, mostram um nível de percepção extremamente desenvolvido, e que não tem correlação, necessariamente, com o grau de desenvolvimento cultural ou educacional.

As pessoas sensíveis - sensitivas - captam a energia positiva ou negativa em cada pessoa, que pode ser vista (na forma de cores) ou pode ser sentida cinestesicamente (começam a sentir repentino mal-estar ou descontrole.

Alguns atribuem significados às cores que “enxergam” no nosso corpo. Eles dizem que o nosso corpo expressa suas doenças e problemas. Tem pessoas que, além de enxergar, procuram “curar”, mudar situações pessoais negativas. Alguns percebem a distância, conhecem e se comunicam com pessoas que podem estar a muitos quilômetros de distância. Normalmente o fazem com pessoas com quem têm algum tipo de vínculo. Mas há casos de pessoas que captam informações de pessoas desconhecidas, a distância.

Essas formas de comunicação extrasensorial ou para-normal nos desafiam, porque mostram que precisamos das tecnologias para ampliar o alcance da nossa informação, para comunicar-nos melhor. Elas expõem a nossa pobreza. As tecnologias são como os óculos, uma grande ferramenta para corrigir defeitos da nossa visão. Se enxergássemos bem, os dispensaríamos. Assim, também, se tivéssemos uma percepção mais avançada da realidade, não dependeríamos tanto das tecnologias, nem se tornariam tão sedutoras.

Sabemos que estes e muitos outros fenômenos de percepção para-normal se prestam a múltiplas interpretações e manipulações. O que podemos afirmar é que esses fenômenos existem e nos colocam uma questão essencial: o conhecimento mais profundo, para-normal (além do normal) não depende de estudo, de avanços na educação formal. Pode-se até afirmar o contrário. Quanto mais se avança no conhecimento intelectual, normalmente, se reduzem as possibilidades de percepção extrasensorial, pelo preconceito que o racionalismo tem em relação a estes fenômenos. Mesmo assim, há pessoas nas universidades que percebem de forma mais profunda, mas que normalmente não se expõem por medo de não serem compreendidos.

Interferências nos processos de conhecimento

Os processos de conhecimento dependem profundamente do social, do ambiente cultural onde vivemos, dos grupos com os que nos relacionamos. A cultura onde mergulhamos interfere em algumas dimensões da nossa percepção. Um jovem dos anos sessenta se parece com um jovem da década de noventa, mas, ao mesmo tempo, muitas percepções e valores mudaram radicalmente. Do hippie contestador dos anos sessenta passamos hoje para um jovem mais conservador, mais preocupado com sua qualidade de vida pessoal, com o seu futuro profissional, em querer ter acesso aos bens de consumo. É um jovem, em geral, menos idealista e com menos sentimentos de culpa que os seus próprios pais.

O conhecimento depende significativamente de como cada um processa as suas experiências quando criança, principalmente no campo emocional. Se a criança se sente apoiada, incentivada, ela explorará novas situações, novos limites, se exporá a novas buscas. Se, pelo contrário, se sente rejeitada, rebaixada, poderá reagir com medo, com rigidez, fechando-se defensivamente diante do mundo, não explorando novas situações.

O feto, o bebê aprendem pelo contato íntimo com a mãe, com as pessoas que estão perto, com o ambiente. Quanto mais solicitações, quanto mais estímulos, mais conexões se criam no cérebro, o que facilita a capacidade de fazer relações.

O feto já reconhece se é amado ou rejeitado, reconhece sons, tem sensações. A interação positiva da mãe com o ele vai ajudando-o a ter uma atitude de confiança, a aprender mais facilmente. Esse processo se torna decisivo nos três primeiros anos de vida, muito antes da criança ir para a escola.

A criança aprende pelo contato, pelo estímulo, e aprende também pelo afeto, pela valorização, por sentir-se amada, aceita, querida. Interação física e emocional são decisivas para que construa formas mais ricas de ligação com a realidade, para que multiplique as conexões cerebrais o mais rapidamente possível.

As conexões cerebrais são formadas, segundo os últimos estudos sobre o cérebro, pelos estímulos exteriores. Os pais que conversam com os bebês, que brincam, cantam, abraçam, beijam, lêem histórias estão de fato contribuindo para formar a inteligência de seus filhos. Estímulos e afeto, comunicação positiva são os ingredientes necessários para desenvolver a nossa mente.

Os limites e possibilidades seriam determinados pela carga genética de cada um, ou seja, pelo que herdamos de nossos antepassados, combinado com o que recebemos ao nascer e às chances oferecidas ao longo da vida.

A criança abandonada a si mesma, deixada de lado, aprende menos. As condições sub-humanas das famílias pobres limitam o processo de conhecimento. A violência, o alcoolismo, a ignorância colaboram para agravar a situação de inferioridade, de medo, de paralisia. Com os pais passando a maior parte do dia fora trabalhando para sobreviver, muitas crianças pobres são abandonadas, muitas vezes trancadas fisicamente, nos primeiros e decisivos anos, sem contato positivo com o mundo.

As interferências emocionais, os roteiros aprendidos na infância levam a formas de aprender automatizadas por alguns mecanismos, que ajudam e complicam o processo. Um deles é o da passagem da experiência particular para a geral, o processo chamado de generalização. Com a repetição de algumas situações semelhantes, a tendência do cérebro é a de acreditar que elas acontecerão sempre do mesmo jeito, e isso torna-se algo geral, torna-se padrão. Diante de novas experiências, a tendência será enquadrá-las rapidamente nos padrões anteriores fixados, sem analisá-las muito profundamente, a não ser que haja divergências extremamente fortes. Com a generalização facilitamos a compreensão rápida, mas podemos deturpar, simplificar a nossa percepção do objeto focalizado. O estereótipo é um processo de generalização e fixação de conteúdo, que se cristaliza e dificilmente se modifica.

Esses processos de generalização e de interferências emocionais levam a mudanças, a distorções, a alterações na percepção da realidade. Cada um conhece a partir de todos esses filtros, condicionamentos. Muitos dados não são sequer percebidos, são deixados de lado antes de serem decodificados. Quando há muitos estímulos simultâneos, o cérebro seleciona os que considera principais e corre em busca dos estereótipos e das formas já familiares. Cada um pensa que a sua percepção é completa e verdadeira e tem dificuldade em aceitar as percepções diferentes dos outros.

Se nossos processos de percepção estão distorcidos, podem levar-nos desde pequenos a enxergar-nos de forma negativa, a não avaliar-nos corretamente. Conhecer a si mesmo, aos outros, o mundo de forma cada vez mais ampla, plena e profunda é o primeiro grande passo para mudar, evoluir, crescer, ser livre e realizar-nos.

O conhecimento na sociedade da informação

O conhecimento não é fragmentado mas interdependente, interligado, intersensorial. Conhecer significa compreender todas as dimensões da realidade, captar e expressar essa totalidade de forma cada vez mais ampla e integral. Conheço mais e melhor conectando, juntando, relacionando, acessando o meu objeto de todos os pontos de vista, por todos os caminhos, integrando-os da forma mais rica possível.

Pensar é aprender a raciocinar, a organizar logicamente o discurso, submetendo-o a critérios, como a busca de razões convincentes, inferências fundamentadas, organização de explicações, descrições e argumentos coerentes. Ler, escrever, ouvir e calcular são mega-habilidades incrivelmente complexas e sofisticadas. Desenvolver a habilidade linguística significa adquirir, ao mesmo tempo, a lógica e a sintaxe que estão inseridas na linguagem. Quanto mais rico é o ambiente cultural familiar, mais facilmente a criança consegue construir a lógica da narrativa, organizar de forma mais rica a linguagem. O desenvolvimento de habilidades de raciocínio é fundamental para a compreensão do mundo. Além do raciocínio a emoção facilita ou complica o processo de conhecer[2].

Processamos a informação de várias formas, segundo o nosso objetivo e o nosso universo cultural. A forma mais habitual, consagrada é o processamento lógico-sequencial, que se expressa na linguagem falada e escrita, onde vamos construindo o sentido aos poucos, em seqüência espacial ou temporal, dentro de um código relativamente definido que é o da língua, com maior liberdade na fala e escrita pessoal ou coloquial. A construção se dá aos poucos, em seqüência concatenada. O contexto se oculta e revela na leitura progressiva. Tanto a escrita quanto a leitura dependem das habilidades de fazer julgamentos, estabelecer comparações, relações e de comunicá-los aos outros. Adquirir habilidade na linguagem significa ter, ao mesmo tempo, adquirido a lógica e a sintaxe que estão inseridas nessa linguagem.

Em outros momentos processamos a informação de forma hipertextual, contando estórias, relatando situações que se interconectam, se ampliam, que nos levam a novos significados importantes, inesperados ou que terminam diluindo-se, nas ramificações de significados secundários. É a comunicação “linkada”, através de nós intertextuais. A leitura hipertextual é feita como em “ondas”, onde uma leva à outra, acrescentando novas significações. A construção é lógica, coerente, sem seguir uma única trilha previsível, sequencial, mas que vai ramificando-se em diversas trilhas possíveis.

Atualmente, cada vez mais processamos também a informação de forma multimídica, juntando pedaços de textos de várias linguagens superpostas simultaneamente, que compõem um mosaico impressionista, na mesma tela e que se conectam com outras telas multimídia. A leitura é cada vez menos seqüencial. As conexões são tantas que o mais importante é a visão ou leitura em “flash”, no conjunto, uma leitura rápida, que cria significações provisórias, dando um interpretação rápida para o todo e que vai completando-se com as próximas telas, através do fio condutor da narrativa subjetiva: dos interesses de cada um, das suas formas de perceber, sentir e relacionar-se.

A construção do conhecimento, a partir do processamento multimídico é mais “livre”, menos rígida, com conexões mais abertas, que passam pelo sensorial, pelo emocional e pela organização do racional; uma organização provisória, que se modifica com facilidade, que cria convergências e divergências instantâneas, que precisa de processamento múltiplo instantâneo e de resposta imediata.

Convivemos com estas diferentes formas de processamento da informação. Dependendo da bagagem cultural, da idade e dos objetivos pretendidos predominará o processamento seqüencial, o hipertextual ou o multimídico. Se estivermos concentrados em objetivos específicos muito determinados, predominará provavelmente o processamento seqüencial. Se trabalharmos com pesquisa, projetos de médio prazo nos interessará o processamento hipertextual, com muitas conexões, divergências e convergências. Se temos que dar respostas imediatas e situar-nos rapidamente, precisaremos do processamento multimídico.

Na sociedade atual, dada a rapidez com que temos que enfrentar situações diferentes a cada momento, cada vez vamos utilizando mais o processamento multimídico. Por outro lado, os meios de comunicação, principalmente a televisão, utilizam a narrativa com várias linguagens superpostas, que nos acostuma, desde pequenos, a valorizar essa forma de lidar com a informação, atraente, rápida, sintética, o que tem conseqüências para a capacidade de dar conta de temas mais abstratos de longa duração e de menos envolvimento sensorial.

Há um tipo de conhecimento que exige respostas rápidas, imediatas e que combinamos com outro processo mais reflexivo, demorado, analítico, que precisa de tempo e concentração para compreendermos um assunto. Na maior parte das situações do dia a dia utilizamos um tipo de conhecimento polivalente, de resposta rápida, tipo “vapt-vupt”, um conhecimento que precisa responder a solicitações imprevisíveis e que exige soluções imediatas. Exemplo, respostas em debates, a perguntas de bate-pronto numa entrevista, respostas a questões no telefone, decisões numa reunião executiva de emergência. Na sociedade urbana este tipo de conhecimento “multimídico” - generalista e menos profundo - é cada vez mais importante, e exige uma capacidade de adaptação e flexibilidade muito grande. O ritmo alucinante da televisão, utilizando vários canais sensoriais e linguagens simultaneamente, favorece esse tipo de conhecimento de assimilação imediata.

Quanto mais mergulhamos na sociedade da informação, mais rápidas são as demandas por respostas instantâneas. As pessoas, principalmente as crianças e os jovens, não apreciam a demora, querem resultados imediatos. Adoram as pesquisas síncronas, as que acontecem em tempo real e que oferecem respostas quase instantâneas. Os meios de comunicação, principalmente a televisão, nos vêm acostumando a dar-nos tudo mastigado, em curtas sínteses e com respostas fáceis. O acesso às redes eletrônicas também estimula a busca “on line” da informação desejada. É uma situação nova na aprendizagem. Mas a avidez por respostas rápidas, muitas vezes, nos leva a conclusões previsíveis, a não aprofundar a significação dos resultados obtidos, a acumular mais quantidade do que qualidade de informação, que não chega a transformar-se em conhecimento efetivo.

A rapidez em lidar com situações polivalentes, como as que enfrentamos na cidade grande, é uma qualidade que nos ajuda a dar múltiplas respostas para as múltiplas situações imprevisíveis que vamos enfrentando. Mas não podemos transferir essa habilidade de lidar com o imediato para o conhecimento mais dirigido, para a busca mais aprofundada, que precisa de tempo, de concentração, de criatividade e de organização.

Em síntese, cada vez são mais difundidas as formas de informar-nos de forma multimídica, ou hipertextual; e menos de forma lógico-seqüencial. As crianças e jovens estão totalmente sintonizados com a multimídia e quando lidam com texto o fazem mais facilmente com o texto conectado através de links, de palavras-chave, o hipertexto. Por isso o livro se torna uma opção inicial menos atraente; está competindo com outras mais próximas da sensibilidade deles, das suas formas mais imediatas de compreensão.

Não podemos permanecer em uma ou em outra forma de lidar com a informação; podemos utilizá-las todas em diversos momentos, mas provavelmente teremos maior repercussão se começamos pela multimidica, passamos para a hipertextual e, em estágios mais avançados, nos concentramos na lógico-seqüencial.

Há um tipo de conhecimento “multimídico” de respostas rápidas, que é importante. Mas vejo que muitas pessoas mantêm uma estrutura precária de relação com o mundo, têm uma relação muito provisória com o devir, com o que vai acontecendo. Fixam-se na rapidez do próprio acontecer na cidade grande, saturada de estímulos fugazes e esse fluir como que embriaga e concentra a atenção de muitos - principalmente jovens - na precariedade dos fatos. Essas pessoas não têm o suficiente distanciamento nem aparato intelectual, para julgar, para selecionar, para encontrar conexões, causas e efeitos, relações, hierarquias, Tudo é fluido, válido, tudo tem importância e, em pouco tempo, perde o valor anterior. É uma atitude que se manifesta no ininterrupto consumo de imagens e sons, no deixar-se “ficar” diante da televisão, numa salada de dados, informações, narrativas, gêneros, enfoques. Não digo que as pessoas fiquem totalmente passivas; elas interagem de alguma forma, mas muitas não estão preparadas para lidar com tanta variedade de dados, de estímulos e vão adotando a reportagem da moda, do presente. Um presente muito efêmero, que não tem história, porque é esquecido, ao ser substituído por novas-iguais mensagens.

Creio que nos tornamos cada vez mais dependentes do sensorial. Isso é interessante, mas muitos não partem do sensorial para vôos mais ricos, abertos, inovadores. Muitos se deixam seduzir pelo atrativo de poder tocar, sentir, ver, ouvir. Uma das tarefas principais da educação é ajudar a desenvolver tanto o conhecimento de resposta imediata como o de longo prazo; tanto o que está ligado a múltiplos estímulos sensoriais como o que caminha em ritmos mais lentos, que exige pesquisa mais detalhada, e que tem que passar por decantação, revisão, reformulação. Muitos dados, muita informação não significam necessariamente mais e melhor conhecimento. O conhecimento se torna produtivo se o integramos em uma visão ética pessoal, transformando-o em sabedoria, em saber pensar para agir melhor.

Caminhos para o conhecimento

Conhecemos mais e melhor se vamos utilizando todos os caminhos - imitação, associação, simulação, interação - de forma cada vez mais integrada, habitual e rica. e, principalmente, se o nosso conhecimento se transforma em ação, se é testado na prática, se é vivenciado nas situações que precisamos enfrentar.

Se participamos de processos de comunicação abertos, apreenderemos não só os fatos, mas as suas relações com o todo. Se nos movemos num sistema fechado, procuraremos o controle, a segurança, a repetição, o passado; enquanto que no sistema aberto, buscaremos mais o que poderemos ser, procuraremos novas informações, novas formas de expressar-nos, de sentir e de agir.

Participar de processos abertos de comunicação ajuda a flexibilizar o nosso pensamento, a buscar novos caminhos, a buscar novas opções, a melhorar a nossa auto-estima, a desenvolver a fluência, a desenvolver o conhecimento sinérgico, a busca do conhecimento integral, da integração cérebro-mente-corpo.

Conhecer é o primeiro passo para ser livres. Sem informação não podemos saber o que escolhemos e a que renunciamos. Mas a informação não é garantia de ação libertadora. Muitas pessoas dominam a teoria, conhecem todos os caminhos, fazem todos os cursos possíveis e não saem de onde se encontram. Muita informação permanece no reino da teoria, da reflexão intelectual, na razão. Ela precisa ser vivenciada, assumida, incorporada, aceita profundamente, para tornar-se produtiva, na ação transformadora.


[1] Porto Alegre, Editora Artes Médicas, 1994.

[2] Matthew LIPMAN. O pensar na educação. Petrópolis, Vozes, 1992, p. 47.

segunda-feira, 19 de maio de 2008

Aula de Hoje:
Criamos tabela no editor de texto: word, insirimos os dados dos colegas de curso, abrimos uma conta de e:mail no site do google e por fim criamos os blog que agora estamos postando estas informações.

Apresentação

Estou chegando HOJE quero me comunicar com alguns colegas meu nome é Valdecir Sanches.